 
O olhar desnudo
A criança tem o olhar desnudo. Olhar desnudo é aquele olhar que vê as coisas do jeito que são. E as coisas assim é que dão prazer na gente. Porque na essência, todas as coisas do mundo são belas. Não há nada mais belo do que o dia amanhecendo, o vento soprando ou a chuva caindo. A beleza está na contemplação e dela depende o prazer da vida.
Para entender melhor esse olhar, basta lembrarmos de experiências em que voltando a um espaço físico, guardado na memória de criança como um lugar especialmente belo, somos invadidos pela estranha sensação, muitas vezes guardada em segredo, de que o lugar não é assim tão belo; nem tão grande; muito menos tão especial.
O olhar dos pais “sustenta” o olhar do filho. É com base nesse olhar que a criança aprende a se relacionar com o mundo. Rubem Alves, renomado escritor, diz em uma de suas metáforas, que o olhar do educador pode transformar os alunos em sapos ou príncipes. O olhar da mãe pode ser de bruxa ou de fada. O do amigo, de herói ou de bandido. O olhar do outro pode ser de alegria ou tristeza, de coragem ou desânimo, de ousadia ou timidez. Dos olhares dos homens o planeta vem se construindo... Ou se destruindo (?).
Cuidar do olhar é tarefa essencial na vida de quem educa. E como todo ser humano é educador, uma vez que educa a própria vida, cuidar do olhar é tarefa de todos nós. “O olhar do adulto deve ensinar à criança que o estado natural de qualquer ser humano é um campo de todas as possibilidades” (Deepack Chopra). E que por isso ela é capaz de crescer feliz, fazendo com prazer as coisas da vida. Fazer com prazer é tarefa fácil para a criança, nem tanto para o adulto. Mais uma prova de que a criança vê o mundo com os olhos do coração, a não ser que um adulto a tenha introduzido ao olhar viciado.
As civilizações mais antigas respeitam culturalmente os mestres dos olhares. São os mais velhos que ensinam a criança a ver o mundo com sabedoria. Olhar se ensina com gesto, que inclui ouvir e acolher. Quem sabe olhar sabe entregar-se ao outro com sensibilidade e afetividade.
As crianças e os velhos possuem o olhar sincero: aquele olhar sedento de “quero tudo e quero mais”. A criança porque não aprendeu a olhar as coisas de forma estereotipada e o velho porque descobriu que esse olhar deturpado cega. A criança porque quer saber tudo e o velho não precisa saber mais nada. A criança porque quer crescer feliz e o velho quer morrer em paz.
O segredo desse olhar não é tão velado assim. Para possuí-lo basta manter-se atento à vida que nos cerca. Afinal, como afirma Simone Weil, “a atenção é a mais alta forma de generosidade”. E só a generosidade desnuda os olhares viciados.
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